Por que tantas vezes nos sentimos perdidos no meio do caminho sem saber por onde andar…
Por que às vezes nem sabemos o que calçar?
Queremos alcançar uma tal liberdade irrisória, que talvez exista só nos nossos sonhos.

Nunca nada está bom!
Nunca nada está bom!

Falei com um tom devastador de quem está iniciando a adolescência, mas já com meus 30 e poucos anos.

Eu não tenho nada a reclamar.

Tenho saúde, tenho uma boa casa, conforto e boas refeições.
Mas então por que raios me sinto incompleto?
Por que raios sinto um vazio aqui dentro?

Por que raios quero alcançar algo que eu mesmo não sei o que é?

Penso, por vezes, em tentar ser mais grato, já que tenho tantas coisas que muitas pessoas não têm, como saúde, casa e alimento.

E ainda assim, algo ecoa por dentro.
Não é ingratidão.
É inquietação.

Talvez o vazio não seja ausência, mas excesso contido.
Talvez seja a alma pedindo espaço.
Talvez seja a vida tentando me empurrar para além do que é confortável.

Não sei ainda o que busco.
Só sei que isso não me deixa em paz.
E talvez não devesse deixar.

Talvez esse incômodo não seja um problema a ser resolvido,
mas um chamado a ser escutado.

Talvez eu não esteja perdido.
Talvez eu esteja apenas no meio do caminho.

No fundo, as pessoas se sentem assim porque chegam a um momento da vida em que a razão já não dá conta de explicar o que o coração sente. Tudo parece estar no lugar certo, mas algo dentro continua fora de lugar. Não por falta de conquistas, e sim por falta de sentido.

Existe um conflito silencioso entre saber que “não falta nada” e sentir que algo falta. Esse descompasso não acontece em pessoas distraídas, mas justamente nas mais conscientes, sensíveis e reflexivas. É quando a vida externa está organizada, mas a vida interna começa a fazer perguntas maiores.

Essa crise não é material. Ela é existencial. Não fala sobre casa, comida ou conforto, mas sobre identidade. Sobre a necessidade de viver algo que ainda não ganhou nome. Sobre a vontade de não seguir apenas um roteiro que funciona, mas que já não preenche. É o desejo de liberdade interna — a liberdade de ser quem se é de verdade.

Muitas vezes, esse processo acontece na vida adulta e vem acompanhado de culpa. A pessoa tenta se corrigir, se cobra gratidão, como se sentir vazio fosse sinal de ingratidão. Mas não é. Gratidão não cura ausência de propósito. Ela ajuda, sustenta, mas não substitui o sentido de existir com coerência.

O vazio, nesse contexto, não é sinal de fracasso. É sinal de expansão. Ele surge quando respostas antigas já não sustentam mais quem a pessoa se tornou, mas as novas ainda estão se formando. Por isso incomoda. Por isso confunde. Por isso parece um retorno à adolescência emocional — não como regressão, mas como despertar.

No fim, não se trata de estar perdido. Trata-se de estar em transição. E toda transição pede escuta, não pressa. Porque esse tipo de incômodo geralmente aparece exatamente antes de uma mudança interna importante — profunda, silenciosa e transformadora.

Talvez esse vazio não seja algo a ser combatido, mas compreendido. Talvez ele exista justamente para nos empurrar em direção a perguntas que nunca tivemos tempo — ou coragem — de fazer. Perguntas sobre sentido, propósito e sobre o que realmente sustenta a nossa existência quando o externo já está organizado.

Esse tipo de inquietação foi profundamente estudado por Viktor Frankl, psiquiatra que dedicou sua vida a compreender por que pessoas que aparentemente “tinham tudo” ainda se sentiam vazias. Em seu livro Em Busca de Sentido, ele explica que o ser humano não adoece apenas pela dor ou pela falta, mas, muitas vezes, pela ausência de significado.

Frankl nos lembra que a vida não se resume ao conforto, à estabilidade ou às conquistas externas. Quando o sentido falta, surge esse vazio silencioso, difícil de explicar, mas impossível de ignorar. Não porque algo esteja errado, mas porque algo dentro de nós está pedindo direção.

Talvez a pergunta não seja “por que me sinto assim?”,
mas sim: o que esse sentimento está tentando me mostrar?

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